Maria Cecília

Uma pausa, um respiro, uma vírgula

Maria Cecília 26 de novembro de 2021 03 minutos

Ilustradora: Sabrina Gevaerd

Fazia um tempo que eu queria parar. Estacionar em um parque e observar a vida passando lá fora, ver as pessoas andando, preocupadas com as suas rotinas e as banalidades do dia a dia. Ver as crianças correrem atrás dos seus pais, atrás dos patos no lago, vivendo a imensidão do estar presente em cada segundo da vida.

Fazia um tempo que eu queria respirar. Sentindo o toque da grama, o balanço da rede e o silêncio barulhento da vida na natureza. Colocar os pés na grama, só por alguns minutos, antes que as formigas começassem a subir neles e eu saísse correndo (como sempre) para colocar um sapato. Tomar uma xícara de café, comer um pedaço de bolo enquanto me sinto em paz, em silêncio.

Fazia um tempo que eu precisava estar comigo mesma. Estar no corpo, sentindo a pele e as milhões de emoções que perpassam dentro dela constantemente, a cada pulsar, a cada veia que passa o sangue. Me perceber como um ser, que pensa e sente, não de maneira mecânica, não como um robô que trabalha 12 horas por dia, e no tempo vago estuda e se sente culpada por não trabalhar mais e não estudar mais.

Escrever foi o tempo que eu criei para parar, respirar e estar. Escrever para mim sempre foi a ponte, entre o mundo da trivialidade, da sociedade do cansaço e da robotização, para o mundo em que eu sou e posso ser eu mesma, em que eu posso me perceber como Ser, sem alter egos sociais.

Em meio a tantos subterfúgios, crises no mundo, pandemia, virtualização excessiva, ter essa possibilidade de parar parece um privilégio, enquanto muitas pessoas estão imersas nos problemas e nas dificuldades que enfrentam no dia a dia e não tem sequer essa possibilidade.

Percebi nesses tempos complicados em que vivemos, que fazia anos que eu não sabia o que era me sentir presente efetivamente, me sentir no corpo, sentir o tempo passar lá fora junto com as nuvens no céu, sentir braços, pernas, e as dores que vem junto com eles. É como se eu não estivesse verdadeiramente viva, como se eu tivesse passado os últimos 10 anos (ou mais) da minha vida como um robô de desempenho, correndo-dopada-exausta, sem tempo para estar e ser, só com tempo para produzir e alcançar metas criadas pela minha própria cabeça.

Precisamos parar, prestar atenção no nosso corpo e nas sensações que existem nele, prestar atenção nas nossas emoções e se perguntar: como eu me sinto hoje? Se olhar no espelho e se enxergar, ver os seus olhos, o seu rosto e se perguntar: eu estou bem?

Você está bem?

Me pergunto isso todos os dias, e tem dias que estou bem, e tem dias em que desejo fugir para uma montanha e ficar lá como uma eremita, como o Zaratustra do Nietzsche. E o que eu digo a mim mesma é que está tudo bem se sentir assim. Não estamos sempre bem e isso faz parte da vida. O mais importante é que você possa escolher de maneira consciente simplesmente “estar”. E isso basta.

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