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	<title>Arquivos Filosofia da Tecnologia - Maria Cecília</title>
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		<title>Pensamento acelerado: por que estamos vivendo na velocidade 2x?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Cecília]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Sep 2023 20:16:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filosofia da Tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[economia da atenção]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em um mundo dominado pela tecnologia e pela constante busca por informação, o pensamento acelerado tornou-se regra. Vivemos em uma era onde a velocidade é valorizada acima de tudo, e isso se reflete em todas as facetas da nossa vida, incluindo a maneira como consumimos conteúdo em vídeo e a nossa percepção sobre a realidade [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em um mundo dominado pela tecnologia e pela constante busca por informação, o pensamento acelerado tornou-se regra. Vivemos em uma era onde a velocidade é valorizada acima de tudo, e isso se reflete em todas as facetas da nossa vida, incluindo a maneira como consumimos conteúdo em vídeo e a nossa percepção sobre a realidade do mundo em que vivemos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste artigo, exploraremos o impacto do pensamento acelerado em nossa sociedade, especialmente no contexto do consumo de conteúdo na internet, e refletiremos sobre a necessidade de encontrar um equilíbrio entre a busca por informações rápidas e a valorização da qualidade e a profundidade de nossas experiências digitais.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h2><b>Efeitos da aceleração de vídeos na aprendizagem e na vida cotidiana</b></h2>
<p><a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/acp.3899"><span style="font-weight: 400;">Uma pesquisa realizada em 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">, pela Universidade da Califórnia, procurou entender o impacto da velocidade acelerada na educação, especialmente entre os jovens. Os resultados mostraram que assistir vídeos em velocidades de 1.0x, 1.5x ou 2.0x não teve um impacto significativo no aprendizado. No entanto, houve uma queda no desempenho quando a velocidade ultrapassou 2.0x. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É importante notar que a pesquisa fez uma ressalva, sugerindo que a relação entre velocidade de reprodução e aprendizado pode variar dependendo da complexidade do conteúdo ou da presença de elementos visuais sobrepostos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra pesquisa, uma </span><a href="https://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2023/05/27/nao-tenho-paciencia-43percent-da-populacao-brasileira-vive-em-ritmo-muito-acelerado-diz-datafolha.ghtml"><span style="font-weight: 400;">conduzida pelo Datafolha</span></a><span style="font-weight: 400;">, revelou que 43% da população brasileira vive em um ritmo de vida duas vezes mais acelerado do que o normal. Nove em cada dez pessoas não se sentem calmas. Michelle Prazeres, fundadora do </span><a href="https://www.desacelera.org.br/"><span style="font-weight: 400;">Instituto Desacelera</span></a><span style="font-weight: 400;">, descreve essa sensação como a &#8220;aceleração social do tempo&#8221;, em que as mudanças acontecem em ritmo acelerado, dando a impressão de que tudo está ocorrendo mais rapidamente.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h2><b>Pensamento acelerado: consumo na velocidade 2x</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A era digital trouxe consigo uma enxurrada de conteúdo em vídeo, e não é segredo que essa mídia se tornou a grande aposta de empresas e influenciadores. </span><a href="https://exame.com/bussola/52-dos-profissionais-de-marketing-investem-no-conteudo-em-video-diz-estudo-da-getty-images/"><span style="font-weight: 400;">Segundo uma pesquisa da Getty Images,</span></a><span style="font-weight: 400;"> aproximadamente 52% dos profissionais de </span><i><span style="font-weight: 400;">marketing</span></i><span style="font-weight: 400;"> estão aumentando seus investimentos no conteúdo de vídeo, argumentando que os vídeos são ideais para transmitir informações complexas, criar um senso de imediatismo e alcançar diversos públicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A tendência é tão dominante que até mesmo os </span><i><span style="font-weight: 400;">podcasts</span></i><span style="font-weight: 400;">, originalmente concebidos como conteúdo de áudio, adotaram um modelo híbrido, incorporando elementos visuais em suas gravações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além das estratégias de </span><i><span style="font-weight: 400;">marketing</span></i><span style="font-weight: 400;"> e das redes sociais, a profusão de conteúdo sob demanda disponível </span><i><span style="font-weight: 400;">online</span></i><span style="font-weight: 400;"> tem aproximado as pessoas cada vez mais dos vídeos. Séries, filmes, cursos e tutoriais estão acessíveis de forma gratuita ou a preços bastante acessíveis nas plataformas de <em>streaming</em>. No entanto, a oferta maciça de conteúdo coloca um dilema: como encaixar tudo isso nas nossas vidas diárias?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante desse dilema, muitos recorrem ao recurso de acelerar a reprodução de vídeos. A maioria dos <em>players</em> de vídeo atualmente oferece essa função, permitindo que os espectadores reduzam o tempo de exibição ou acelerem a reprodução em 1x, 1.5x, 2x e, em alguns casos, até 2.5x e 3x em comparação com a velocidade original.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao assistir conteúdos que sejam destinados a momentos de lazer na velocidade 2x, há um comprometimento da compreensão da história. As produções cinematográficas muitas vezes são criadas com ritmos específicos, pausas deliberadas e momentos de reflexão essenciais para a apreciação e construção da narrativa. Ao acelerar o conteúdo, perdemos essas nuances, diminuindo a qualidade da nossa experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse modelo de consumo de conteúdo também age ampliando a cultura do pensamento acelerado, onde a otimização do tempo é valorizada acima de tudo. Estamos realmente absorvendo o conteúdo de maneira significativa ou apenas consumindo informações de maneira superficial? Estamos vendo porque queremos ver ou por que consideramos uma obrigação estar por dentro dos últimos lançamentos e, por isso, a experiência não importa mais e sim o consumo por si só? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pensamento acelerado não se limita apenas ao consumo de mídia. Ele se estende às nossas vidas pessoais e profissionais, onde muitas vezes nos sentimos sobrecarregados pela necessidade de fazer mais em menos tempo. Isso pode resultar em níveis elevados de estresse, falta de foco e uma sensação constante de pressa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A prática de assistir vídeos em alta velocidade é um sintoma de uma sociedade que valoriza a velocidade e a produtividade acima de tudo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h2><b>Sobrecarga de informações ou </b><b><i>information overload </i></b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra questão importante para essa discussão é o conceito de sobrecarga de informações — em inglês, </span><i><span style="font-weight: 400;">information overload</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://iorgforum.org/"><span style="font-weight: 400;">O Grupo de Pesquisa sobre Sobrecarga de Informação (IORG)</span></a><span style="font-weight: 400;"> explica que essa condição ocorre quando as informações disponíveis superam a capacidade de processamento do indivíduo no tempo disponível. Essa sobrecarga é uma consequência da produção constante e da disseminação massiva de informações, impulsionada por três fatores principais: </span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">a coleta excessiva de dados: são tantas informações que não somos capazes de filtrar, processar e analisar tudo de forma adequada;</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">a falta de tempo para processar esses materiais devido à quantidade de prioridades e prazos que precisamos cumprir; e</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">a presença de informações de qualidade duvidosa e a incapacidade de determinar o que é realmente confiável e válido. </span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">A aceleração do consumo de vídeos parece oferecer uma solução para lidar com essa sobrecarga. A ideia é simples: em menos tempo, é possível acessar mais informações e decidir o que é relevante. No entanto, vale a pena questionar os custos dessa escolha para a nossa saúde física e mental. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h2><b>Impactos do pensamento acelerado na concentração e no foco</b></h2>
<p><a href="https://www.forbes.com/sites/shanesnow/2023/01/16/science-shows-humans-have-massive-capacity-for-sustained-attention-and-storytelling-unlocks-it/?sh=5c1da5411a38"><span style="font-weight: 400;">Em 2015, surgiu na internet notícias de uma pesquisa que dizia que humanos estavam com uma capacidade de concentração de apenas oito segundos</span></a><span style="font-weight: 400;"> — menor que a de um peixinho-dourado. Pesquisadores da área disseram que aquele dado não existia e a fonte original da notícia acabou admitindo que o conteúdo era falso. Mesmo assim, a notícia causou comoção e até hoje há quem acredite nela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa pesquisa não era real, mas existe sim um impacto das tecnologias atuais em nossa capacidade de concentração. </span><a href="https://time.com/6302294/why-you-cant-focus-anymore-and-what-to-do-about-it/"><span style="font-weight: 400;">Pesquisas realizadas pela professora de informática Gloria Mark, da Universidade da Califórnia</span></a><span style="font-weight: 400;">, mostraram que a mudança de foco das pessoas enquanto usam dispositivos eletrônicos ocorre em intervalos cada vez menores. No início dos anos 2000, a média era de 2,5 minutos e, segundo ela, recentemente, esse tempo diminuiu para alarmantes 47 segundos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos motivos é que nosso cérebro está condicionado a uma busca permanente por novidade. Os algoritmos das redes sociais e aplicativos nos fazem acreditar que precisamos verificar imediatamente nossas mensagens, redes sociais e notificações. Esse comportamento, alimentado pelo desejo de agilidade, está diretamente relacionado ao hábito de assistir vídeos em velocidade aumentada.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h2><b>Repensando prioridades e diminuindo o ritmo</b></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Num cenário onde a velocidade e a incessante busca por informações são tão centrais, a prática de acelerar a reprodução de vídeos surge como tática para lidar com a imensa quantidade de conteúdo disponível. No entanto, esta tendência requer uma análise que vá além do indivíduo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As empresas de tecnologia desempenham um papel significativo ao promover essa cultura de consumo acelerado, enquanto enfrentam demandas cada vez maiores por produtividade. Quanto mais tempo os usuários passam navegando em redes sociais, assistindo a vídeos ou interagindo com aplicativos, maior a receita gerada por meio de anúncios e serviços </span><i><span style="font-weight: 400;">premium</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os usuários são cada vez mais pressionados a acompanhar o ritmo frenético de novidades e lançamentos, consumindo rapidamente uma quantidade cada vez maior de informações e conteúdo. No meio de tudo isso, estão muitos aspectos da vida cotidiana, incluindo trabalho e educação, que agora estão profundamente interligados com a tecnologia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A pressão também está em realizar mais tarefas em menos tempo. Isso se traduz em práticas como multitarefa constante e a busca por maneiras de consumir informações mais rapidamente — e a aceleração de vídeos entra como uma ferramenta para atingir esses objetivos. </span></p>
<p><strong>E, como sabemos, essa necessidade de realizar cada vez mais tarefas em menos tempo tem como consequência o aumento nos níveis de estresse, esgotamento e até mesmo a uma redução na qualidade do trabalho ou da aprendizagem. </strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao invés de se concentrar exclusivamente na velocidade do consumo, é essencial repensar nossas prioridades e, simultaneamente, exigir uma abordagem mais ética e responsável por parte das corporações que moldam nossa experiência digital. Por que estamos constantemente imersos em um ritmo frenético de busca por informações e como isso afeta nossa qualidade de vida? Como as redes sociais, celulares, aplicativos impactam e estimulam esse comportamento? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca por uma vida menos acelerada, com espaço para reflexão, contemplação e aprofundamento, deve ser uma meta coletiva em oposição a uma sociedade que valoriza cada vez mais a produtividade, mas muitas vezes negligencia a saúde, bem-estar e necessidades básicas dos indivíduos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Repensar a prática do consumo acelerado de vídeos é um convite para uma análise mais profunda sobre como escolhemos viver nossas vidas. Em um mundo cada vez mais rápido e saturado de informações, é preciso refletir sobre o que estamos escolhendo e o que estamos apenas deixando que seja escolhido por nós. </span></p>
<p><b>Indicações </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[Site] O site do </span><a href="https://iorgforum.org/"><span style="font-weight: 400;">Grupo de Pesquisa sobre Sobrecarga de Informação (IORG)</span></a><span style="font-weight: 400;"> está cheio de indicações de leituras, vídeos e entrevistas sobre o tema. </span></p>
<p><a href="https://iorgforum.org/io-basics/"><span style="font-weight: 400;">https://iorgforum.org/io-basics/</span></a><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">[Livro] </span><a href="https://www.amazon.com/How-Do-Nothing-Resisting-Attention/dp/1612197493"><span style="font-weight: 400;">How to do nothing </span></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parece impossível fugir de toda essa tecnologia e necessidade de produção, mas o livro da artista e crítica Jenny Odell quer ser um guia para romper com essa lógica. Em “How to do nothing”, a autora fala da importância de valorizar o ato de não fazer nada, sem sentir culpa, em oposição a essa “economia da atenção”.</span></p>
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